Tropa de Elite, salário de ralé.



O fenômeno da vez é "Tropa de Elite", filme de José Padilha sobre o Bope, Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Uma obra realista que retrata o combate ao tráfico de drogas nos morros cariocas e a corrupção da PM na visão do Capitão Nascimento, um homem cansado de lutar numa guerra perdida que busca um sucessor para tomar seu lugar. Trata-se de um trabalho bem produzido e polêmico que ganhou a mídia pela forma que aborda o tema da criminalidade e também por ser alvo dela, por meio de uma pirataria massiva. Mais de 1 milhão de pessoas assistiram o filme antes que ele chegasse aos cinemas e a película aportou em Portugal, Moçambique e Angola, graças à internet. O sucesso é tanto que a Rede Globo já cogita criar um seriado a partir do longa, como fez com "Antônia" e "Cidade dos Homens".

Diante da receptividade que o filme teve, não restam dúvidas de que a população quer discutir o assunto da Segurança Pública. O grande feito de "Tropa de Elite" nesse sentido foi provocar esta discussão e o fez melhor que "Cidade de Deus" e "Carandiru", outros sucessos do cinema nacional. Isso porque naqueles filmes, o "herói" da trama é o bandido, que chega a ser endeuzado em oposição ao retrato negativo que a polícia recebe, quase sempre por conta da corrupção.

Em "Tropa de Elite", vê-se a história desenrolar-se em torno de heróis surgidos dentro da corporação policial e vale dizer que é a primeira vez que isso ocorre na recente tragetória da indústria cinematográfica brasileira. Já se comenta o rumor de jovens interessados em ingressar na PM, somente para tentar uma vaga no Bope. O boato em si pode ser considerado uma vitória num país tomado pelo crime, no qual os jovens desprovidos de oportunidades só almejam um futuro de prosperidade na figura dos grandes traficantes de entorpecentes em suas mansões na zona sul.

"Faca na caveira e nada na carteira", diz um dos PM´s do filme ao ver um esquadrão do Bope entrar numa favela. Uma clara referência ao ridículo salário dos policiais no Brasil. Se "Tropa de Elite" é estopim para discutir a Segurança Pública também entre as massas, tomo a liberdade de lançar novos tópicos. O Ministro da Justiça, Tarso Genro, circula pelo território nacional promovend o Pronasci, Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, uma espécie de Pac da área. O plano possui ações louváveis, mas pode receber alguns adendos. É hora de ousar e sob essa premissa sugiro:

1- Estabelecer piso salarial nacional de R$ 2000,00 para policiais. Quem sai nas ruas todos os dias disposto a levar uma bala no peito para proteger a sociedade merece ter um salário digno. 2- Criar metas e premiações em dinheiro para bons policiais. Isso mesmo! Salários baixos e a necessidade de faturamento extra acaba corrompendo os policiais. Todo mundo sabe que quem ganha bem e é reconhecido tem menos chances de sucumbir à corrupção.

Se a motivação financeira leva muitos para o crime, pode mantê-los na linha também. Com certeza isso é polêmico, mas tem grande eficácia e já vem sendo aplicado em outras áreas. Em Minas Gerais e em São Paulo, o bom aluno leva ao fim do ensino médio uma poupança em dinheiro para ajudar na faculdade ou no que precisar. Há cidades nos EUA e na Europa que dão prêmios em dinheiro para quem perder peso e se mantiver magro. Com isso as prefeituras gastam menos com a remediação dos efeitos negativos da obesidade sobre a saúde de quem tem problemas com a balança.

Por quê um policial que prende um criminoso procurado não pode ganhar uma bonificação monetária juntamente com a medalha que recebe? A proposta é controversa, mas situações extremas exigem medidas equivalentes. Um dia, talvez, teremos menos tropas de elite e mais segurança de elite.


15-10-07

Comentários

Neto disse…
As questões de segurança e educação andam de mãos dadas, como é bem sabido. Enquanto a segurança pública aparece como um remédio de efeito mais rápido e aparente, a educação é discutida e falada por todos, mas não se tem visto sua implementação de fato pelo Brasil afora, salvo algumas exceções.
Interessante a proposta de piso salarial nacional para polícia, mas impossível, porque as polícias civis e militares dos Estados são de suas próprias competências e não pode a União legislar sobre o destino do orçamento desses Estados. Aqui em Brasília, por exemplo, temos os maiores salários para as polícias. Um soldado PM (nível médio) inicia sua carreira com um salário de cerca de R$ 2.200,00e um agente da polícia civil (nível superior), com cerca de R$ 6.000,00. Enquanto isso, um professor da fundação educacional do DF (nível superior), tem como salário inicial, meros R$ 1.800,00. É ou não um absurdo?
Agora, de volta ao filme... interessante mesmo que o "herói" do filme é o policial, e mais, o policial que repudia a corrupção do mesmo jeito que repudia o crime. Infelizmente ele recorre à tortura e ao homicídio no filme, mas, quanto à tortura, pelo menos no filme, apesar de criminosa, de cruel, toda vez que é empregada, arranca uma confissão que se prova útil... pra mim, isso relativiza algo, afinal, se o bandido é torturado (NO FILME, por favor, não sou a favor desse método medieval!) é porque não confessa logo. E se Jack Bauer (do seriado estadunidense 24 horas) pode torturar terroristas e sair com a imagem de herói inabalada, porque não o Capitão Nascimento?
Vamos querer mais Capitães Nascimentos ou mais Capitães Oliveiras (o que está no sistema e com o sistema dentro do filme)?
Eu opto pelo primeiro!
Educação sempre deve vir antes da repressão. Aliás, só é preciso usar de polícia truculenta porque a criminalidade é truculenta, justamente por causa da má educação que o brasileiro recebe. O mal pega primeiro os pretos e pobres, como é dito no filme. Esse mal de existir tropas de elite (aqui ou nos EUA, no caso a SWAT) está aí por aí porque sem ele seria muito pior. O que o filme faz de bom é o que os matemáticos costumam fazer em suas experiências: Encontrar os limites. Mostra-se os extremos para entendermos como falhamos em buscar os meio-termos.
Luisa Naves disse…
Texto muito bem escrito sobre o filme e sobre as críticas sociais que têm surgido... concordo com grande parte das coisas, até mesmo na questão mais polêmica sobre reconhecimento por meio de premiações em dinheiro. A única parte que discordo é "Todo mundo sabe que quem ganha bem e é reconhecido tem menos chances de sucumbir à corrupção." Pois se assim fosse, não veríamos tantos políticos corruptos. Na teoria parece ter lógica esse raciocínio, mas na prática não é o que vemos.
Existem muitos juízes e políticos entregues à corrupção por conta da ganância, isso não se nega. O fato é que a corrupção notoriamente atinge mais facilmente quem está mais sucetível à ela. Em certos casos, é a vontade de ter mais dinheiro, em outros é a necessidade de ter mais.

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